Olha mãe, eu que fiz!

Uma coisa engraçada nessa história de desenhar é que as pessoas tem uma tendência a reduzir tudo ao tal do "dom".

Tem gente que tem facilidade, consegue entregar mais qualidade com menos esforço, mas invariavelmente e mesmo que de forma empírica, tem muito estudo envolvido. Não se trata apenas daquele rigor formal da academia, tem a ver também com dedicar horas produzindo materiais que nunca vão ver a luz do dia. Observar e reproduzir é estudar, produzir um simples rascunho é estudar, tentar aplicar dicas de amigos é estudar.

Aliás isso é outra coisa que me irrita nessa história de atribuir tudo ao dom, parece que reduz o papel de quem ensina, parece que apaga da história aquele conselho que mudou sua vida, diminui o papel daquele professor que te fez entender um fundamento, ignora toda uma cadeia de transmissão de conhecimento. Um artista, assim como um cirurgião, mecânico, acadêmico ou qualquer outro ser humano é uma pessoa que carrega e transforma uma série de conhecimentos transferidos de geração em geração.

Esse mural da foto, que foi feito para o Hospital dos Veterinários Com Amor (muito obrigado pela confiança pessoal <3), é um exemplo disso. Se não fosse pelo Cacau, Thiago, Jundi, do contato com movimentos como o Colaqui da Paula e com espaços como o Cão Pererê, Xeque Mate eu nunca teria topado desenhar algo em uma parede. Muitas outras pessoas me ajudaram a construir essa faceta da minha produção e tantas outras me ajudaram a desenvolver tantos outros aspectos que, invariavelmente, se interseccionam e interagem. E isso pra não citar quem está ali do lado, dando força, ajudando a gente se erguer depois de cada tombo, não é Mariana?! :*

É tanta gente responsável pela existência de um simples desenho, ou melhor, pela existência do próprio artista, que fica até difícil de contar. Nunca é algo que sai do nada, é sempre uma soma. Por isso, quando você quiser elogiar um artista, por favor valorize o esforço ao invés de dizer que a pessoa só foi agraciada com um "dom".